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Marcos Maluly 12/02/2026

Erro Histórico: Quando o Incentivo Oficial Quase Extinguiu o Café de Sombra em Guaramiranga

Hoje, a cana-de-açúcar na Serra de Baturité sobrevive mais como memória cultural

Erro Histórico: Quando o Incentivo Oficial Quase Extinguiu o Café de Sombra em Guaramiranga
Entre o final da década de 1970 e o início dos anos 80, uma política de modernização agrícola financiada pelo Governo Federal General João Baptista de Oliveira Figueiredo, por meio do extinto Instituto Brasileiro do Café (IBC), propôs um acordo drástico aos agricultores do Maciço de Baturité: a erradicação do café nativo sombreado para dar lugar às variedades "paulistas" de alta produtividade. 

O que era vendido como progresso tecnológico transformou-se em um desastre ecológico e econômico que mudou a paisagem de Guaramiranga.

O Plano do Governo: Sob a justificativa de aumentar a competitividade cearense, o governo liberou verbas e linhas de crédito específicas para o corte do café Arábica Típica. O objetivo era implementar o modelo de "sol pleno" — comum em São Paulo e Minas Gerais — utilizando as variedades Catuaí e Mundo Novo, que exigiam a derrubada das árvores da mata para que o sol batesse diretamente nos pés de café.
O Crime Ambiental: Para receber o subsídio, o produtor era obrigado a "limpar" a área. Árvores centenárias que forneciam o sombreamento essencial para o café nativo foram cortadas. O resultado foi a erosão do solo serrano e a perda da biodiversidade local, já que o Café Sombreado é o que melhor preserva a Mata Atlântica remanescente.

A Resistência e o Arrependimento: Muitos agricultores que aceitaram a verba viram suas plantações "paulistas" morrerem em poucos anos, incapazes de se adaptar ao microclima e à topografia cearense sem a proteção da floresta. O café nativo, antes desvalorizado pelo governo, sobreviveu apenas em sítios de produtores que resistiram à oferta financeira, preservando o que hoje é o prestigiado Café de Sombra.

A tentativa de "paulistizar" a serra deixou cicatrizes na economia local que levaram décadas para cicatrizar. Hoje, a ironia histórica se completa: o café que o governo pagou para destruir é agora o motor do turismo e da sustentabilidade na Rota Verde do Café, sendo reconhecido internacionalmente por sua pureza e raridade.

O depoimento dos proprietários dos sítios Água Fina, Santarém entre outros, que não aceitaram cortar seus cafezais, ilustra o clima de tensão da época. Muitos agricultores, endividados por secas anteriores, viram na verba do governo uma saída rápida. Contudo, a resistência de alguns agricultores não foi por teimosia, mas por uma sabedoria ancestral sobre o microclima da região serrana.

"Nós vimos os rios secarem nas propriedades do lado porque cortaram tudo para plantar o tal café paulista. O café deles nasceu rápido, mas morreu rápido, porque não tinha a umidade da floresta. O nosso continuou lá, no tempo dele, debaixo da sombra, doce como mel", afirmou um agricultor da época.

Hoje, o sítio Águas Fina é um dos pontos de parada da Rota Verde do Café, onde turistas de todo o mundo pagam para conhecer o Café Típica, a mesma variedade que o governo, um dia, tentou apagar do mapa. Já o sítio Santarém é fechado para visitas, mas está lá a mais antiga variedade coberta com ingazeiras. A história prova que, em Guaramiranga, a preservação não foi uma escolha política, mas um ato de fé de quem conhece o chão que pisa.
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