A Crônica: O Bule e o Byte
O bule de ágata que não entende o silêncio que vem do fone de ouvido da jovem. Para ele, “Música de Carnaval” sempre foi barulho compartilhado, o coro das marchinhas que unia desconhecidos em um único grito de "abre alas". Naquele tempo, a fantasia era um
A neta sorri, digitando freneticamente enquanto o café esfria. Ela faz parte de uma geração que democratizou ainda mais as ruas, ocupando espaços antes restritos aos bailes de salão aristocráticos. Mas, nesse processo, o carnaval perdeu sua ingenuidade. O "choque" não está apenas no volume do som, mas na vigilância; antigamente, o erro era esquecido na Quarta-Feira de Cinzas; agora, ele é fotografado, filmado, postado, e julgado antes mesmo do bloco acabar de passar.
O avô entra na cozinha, os passos lentos contrastando com a agitação digital da menina. Ele olha para o celular dela e depois para o bule. Dois mundos que, embora usem o mesmo nome para a festa, buscam coisas diferentes: ele, a memória de um Brasil que cantava junto; ela, a euforia de um Brasil que precisa ser visto. No fim, o café serve a ambos: é o combustível para quem ainda tem chão e o consolo para quem já só tem a lembrança.