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Marcos Antônio 20/09/2026

O Olimpo Não Aguenta um Chiste

Crônica

O Olimpo Não Aguenta um Chiste

Brasília sempre teve fixação por colunas gregas, mas o que aconteceu no plenário do Supremo Tribunal Federal foi um passo além na arquitetura barroco-helênica da capital. O ministro Flávio Dino, percebendo que a atmosfera do tribunal estava mais pesada que o recesso do judiciário, resolveu operar um milagre retórico. Olhou para o ministro Edson Fachin, cujo semblante costuma irradiar a alegria de um inventário de cartório, e mandou: "A ironia serve para descontrair o ambiente. Como dizia Aristóteles".

No mesmo instante, um tremor de magnitude sete (7) na escala da vergonha alheia chacoalhou o túmulo de Aristóteles em Estagira.

O velho filósofo, se pudesse baixar em plenário em uma carruagem alada de deus ex machina, certamente pediria a palavra pela ordem. E não seria para amaciar o ego da corte. "Vejam bem, excelências", diria o grego, ajeitando a túnica com desprezo indisfarçável. "Eu passei a vida tentando organizar o pensamento humano para você me transformar em para-choque de caminhão institucional? Eu nunca disse isso!"

Para Aristóteles, a ironia não era o tiozão do pavê tentando quebrar o gelo em uma reunião de condomínio. A ironia era um defeito de caráter, o vício da dissimulação, o sujeito que se faz de coitado e esconde o que tem para parecer humilde. Algo, convenhamos, muito comum no próprio funcionalismo público, mas que nada tem a ver com "descontrair".

O que Dino queria, coitado, era invocar a eutrapelia. Mas imagine o ministro, no meio de uma sessão transmitida pela TV Justiça, soltando: "Ora, Fachin, usemos de eutrapelia!". O espectador atento roendo as unhas, mudaria de canal achando que se tratava de uma nova subvariante da varíola dos macacos ou de um remédio tarja preta para a calvície.

Então, na falta de uma palavra boa que o povo entenda, joga-se na conta de Aristóteles. É o método tradicional do debate público nacional: se a frase soa bonita e inteligente, bota o nome de um morto famoso embaixo que ninguém vai checar a bibliografia antes do próximo intervalo para o cafezinho.

Dino, com a astúcia típica dos velhos tribunos que sabem que a verdade no debate público é moldada pela narrativa, acabou blindando a autoria da frase. A máxima agora é dele por usucapião retórico, com direito a registro simbólico no cartório da nossa imaginação institucional. No frigir dos ovos, a piada intelectual funcionou: o ambiente descontraiu, Fachin sobreviveu ao susto e o Brasil provou, mais uma vez, que nossa Suprema Corte pode até não ser o berço da filosofia ocidental, mas continua sendo o maior espetáculo de comédia stand-up da República. Se Aristóteles estivesse assistindo, provavelmente abandonaria o meio-termo, vestiria o figurino de um satírico e cassaria o diploma do tradutor.

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