O dia em que a nostalgia gerada por Inteligência Artificial dividiu o Brasil
Na publicidade digital, o maior ativo de uma marca é a capacidade de gerar conversa espontânea.
Em julho de 2023, a Volkswagen celebrou seus 70 anos no Brasil com uma campanha criada pela agência AlmapBBDO que se tornou o exemplo definitivo de como a tecnologia pode amplificar o poder de uma narrativa e, ao mesmo tempo, abrir um debate ético sem precedentes nas redes sociais.
O comercial uniu, através da tecnologia de “deepfake” e Inteligência artificial generativa, a cantora Elis Regina (falecida em 1982) e sua filha, Maria Rita, cantando juntas a música "Como Nossos Pais" enquanto dirigiam carros da marca.
O Sucesso: Engajamento orgânico e quebra do algoritmo
A campanha alcançou o que toda agência busca na era da internet: viralização absoluta e conexão emocional profunda.
Furou a bolha: O vídeo não dependeu apenas de mídia paga; ele foi compartilhado massivamente de forma orgânica no WhatsApp, Instagram e X (Twitter).
Gatilho da Nostalgia: A internet adora conexões humanas reais. A publicidade resgatou um sentimento de identidade nacional, unindo gerações (pais que ouviam Elis e filhos que ouviam Maria Rita).
Métricas de Performance: A busca pela marca e pelo modelo do carro elétrico promovido disparou no Google nas horas seguintes ao lançamento, provando que a emoção digital gera intenção de compra.
O Revés: O tribunal da internet e o debate ético
Se por um lado a campanha arrancou lágrimas, por outro ela ativou o modo crítico dos usuários da internet. Em poucas horas, a marca enfrentou um efeito colateral comum no ambiente digital: o questionamento ético do uso da tecnologia.
O debate sobre a inteligência Artificial: Internautas e críticos começaram a questionar os limites do uso da imagem de pessoas falecidas por meio de Inteligência Artificial para fins comerciais.
Contexto Histórico: Usuários do X (Twitter) resgataram a história da música "Como Nossos Pais", uma composição de Belchior que criticava a ditadura militar, período em que a própria Volkswagen enfrentou investigações por colaboração com o regime. Essa contradição virou pauta de fios (threads) explicativos que viralizaram tanto quanto o comercial.
Investigação do Conar: O impacto foi tamanho que o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) chegou a abrir uma representação para avaliar a ética do uso de inteligência artificial para "trazer pessoas de volta à vida". O processo foi posteriormente arquivado, mas marcou a história da regulação digital.
A Lição para o Mercado de Trabalho
Esse caso real deixa claro que o publicitário moderno não pode ser apenas um executor técnico de ferramentas digitais. A internet deu voz ao público para desconstruir narrativas em tempo real. O sucesso de uma grande campanha digital hoje depende do equilíbrio entre três fatores: o domínio técnico da inovação, a sensibilidade cultural e a antecipação de crises em redes sociais.