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Guaramiranga, Ceará
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Marcélio Farias 25/01/2026

Libânia de Holanda: Mitos e Realidade

Para: professora Thirza Maria Bezerra Bindá

Libânia de Holanda: Mitos e Realidade

Por ocasião da realização do I Encontro Norte e Nordeste de História da Educação e do V Encontro Cearense de Historiadores da Educação, que foi realizado em Guaramiranga, no ano de 2006, esteve em minha residência acompanhada da vereadora Zélia Nunes de Holanda, a professora de Pedagoga da UFC, Thirza Maria Bezerra Bindá, mestre em História da Educação, que era uma da palestrante do evento, e se mostrou interessada no conhecimento da vida de Libânia de Holanda. Posteriormente fiz um relato, como segue abaixo e o envie, conforme exponho agora a todos interessados: Quando iniciei estudos sobre a figura de D. Libânia de Holanda ou Libânia de Queiroz, natural de Quixeramobim, filha de João Ignácio de Queiroz e de Felismina Cândida de Queiroz, que era residente no sítio Uruguaiana, em Guaramiranga, sendo esposa de Baltazar Lopes de Lima, conhecido como Coronel Dadá, já sabia. que se tratava da viúva mais rica do Ceará, em seu tempo. 


Era possuidora de uma mansidão de terras, tão vasta que quase toda a encosta da serra de Baturité lhe pertencia, era dona do alinhamento de serras de Mulungu à Palmácia, mantinha enormes fazendas de criar no sertão central e até no Estado do Piauí, produzia as maiores e melhores safras de café da Serra de Baturité, sempre aos milhares de sacos por ano. Seu sítio Uruguaiana tinha o melhor estilo de arquitetura da época, comportava umas cem famílias de colonos moradores e onde pelos seus fartos recursos, todas elas, encontravam as mais amplas compensações pelos esforços empregados. 


O sítio possuía grandes várzeas próprias para a cultura de cana de açúcar, vastas encostas de declive suave, indicado para a cultura da mandioca, cereais e batatas de todas as espécies. Conservava ainda uma grande área de matas virgens, recurso valioso. Lá se encontravam terras magníficas para a cultura do café, que já era feita em certa escala e que poderiam ser ampliadas com sucesso, caso o braço viesse corrigir a grande deficiência que existe em toda a zona serrana. O sítio possuía regular instalação para o beneficiamento do café e o engenho para a moagem da cana-de-açúcar, as fábricas eram acionadas por 80 H.P. fornecido por máquinas à vapor importado da Inglaterra. Era provida de uma capela em invocação ao Sagrado Coração de Jesus, onde aos domingos eram realizadas as missas, com a presença de todos os moradores do sítio, em muitas vezes, era celebrada pelo Padre Tabosa (depois Monsenhor Antônio Tabosa Braga), seu amigo de consolo espiritual. Mas o que me intrigava sobre Libânia de Holanda, dentre das muitas, incríveis histórias e lendas, era o fato de ter se tornada conhecida popularmente como uma criatura muito rigorosa, tanto no trato com seus moradores, como também com quem a negociava, dizem que após a morte de seu esposo, não comprava nem vendia suas propriedades. 


Uma das lendas, contam que um certo dia, um de seus empregados estava levantando sacos de café para colocá-los na máquina beneficiadora e por descuido deixou cair um deles ao chão, espalhando todos os grãos, foi quando então foi ordenado a apanhar o que derramará, o qual o fez imediatamente, mas por descuido seu, tratou logo de pegar outros sacos cheios deixando alguns caroços pelo chão do saco anterior, foi então que foi veementemente repreendido por dona Libânia, que na frente de todos, determinou que apanhasse até o último, sendo “caroço por caroço”. Contam ainda, que sua fama de ruim era tão grande que no dia de sua morte, seus moradores, em suas numerosas fazendas e sítios, realizaram uma “grande festa” comemorativa.


Logo tratei de verificar o sentido das duas histórias populares contadas, foi quando descobri, que na primeira história o empregado era José Pinheiro Cavalcante (Zé Pinheiro), pessoa de origem pobre, mas muita trabalhadora, que estava em estadia em seus parentes, acho que na casa de Júlia Cavalcante que era esposa de Manoel Vinuto, do Sítio Boa Esperança. Dizem que após apanhar todos os caroços de café, este prometeu a si mesmo que muito iria trabalhar, para um dia possuir igual riqueza de sua patroa, e nunca mais passar por uma humilhação daquela, lógico que a promessa não fora realizada, mas o rigor de dona Libânia serviu-lhe de aprendizado e a lição fez daquele empregado, um dos homens mais rico e próspero do município de Palmácia, com seu trabalho e determinação, conseguiu erguer uma grande frota de ônibus (Autoviação Pinheiro) que até hoje faz linhas regulares em quase toda serra. O sentido da segunda história é ainda mais inusitado, e a resposta do enigma veio com seu testamento de última vontade, pois nele havia um fato que dera uma real e breve alegria a todos seus moradores. Nele dona Libânia, que faleceu sem prole ou herdeiros necessários, em 26 de fevereiro de 1936, com 86 anos de idade, estando sepultada no cemitério Nossa Senhora do Carmo, em Quixadá, deixou um bom legado para todos eles, que ao saberem após sua morte fizeram uma festa de fogos. Veja como ficaram os destinos de todos os seus bens expressado em seu testamento: 


1) Aos empregados e aos pobres: deixou a seus domésticos dois contos de reis cada e a cada chefa de família dos moradores dos sítios Uruguaiana, Jerumenha e Flora deixou cem mil reis e ainda o perdão de todas e quaisquer dívidas que tenha com a alecida, deixando ainda a quantia dez contos de reis a serem distribuídos aos pobres e da seguinte forma: dois contos de reis aos pobres de Guaramiranga, dois contos de reis aos pobres de Quixadá, dois contos de reis aos pobres de Canindé, dois contos de reis aos pobres de Pacoti e dois contos de reis aos pobres de Baturité, se possível, deverão ser entregues pelo vigário, no sétimo dia de sua morte. 


2) Aos compadres, afilhados e amigos: ao compadre e amigo Francisco de Menezes Pimentel deixou o sítio Uruguaiana, em Guaramiranga e a fazenda Santo Antônio, em Caridade; ao compadre e amigo Belizário Fernandes da Silva Távora deixou trinta apólices de dívida pública federal e ao compadre e amigo Dr. Adolpho Cordeiro de Morais Campello deixou dez apólices de dívida pública federal; a afilhada Maria Augusta Ferreira (filha de Joaquim Torquato Ferreira) deixou parte do sítio Cana Brava em Guaramiranga e uma casa em Fortaleza; a afilhada Maria Estela Bezerra (filha de Raimundo Bezerra de Figueiredo) deixou uma casa em Quixeramobim; ao afilhado Pedro (menor) filho de Cícero Nogueira de Queiroz deixou dez vacas; a afilhada Hermínia filha de Jacintho Medina Filho deixou cinco vacas, a afilhada filha de Raimundo Medina, feitor do sítio Brejo das Pedras, deixou dez vacas, a afilhada filha de Gentil Ferreira Lima deixou cinco vacas, a afilhada filha de Jacintho Medina deixou quatro vacas. 


3) Aos familiares: a irmão Pedro Jucá deixou as fazendas Flora e Bonfim, em Quixadá e Santa Rita em Caridade; a irmã Ana Quitéria de Holanda, viúva do capitão Ivo de Holanda deixou quatro casas em Fortaleza, ao irmão Joaquim Alves de Queiroz Barreira (na época já falecido ficando para os filhos) deixou a fazenda Contendas em Canindé; ao sobrinho João Nogueira Filho deixou a fazenda Ingá em Quixadá; as sobrinhas Nelly e Clara Elly (menores) filhas de Ozório Nogueira de Queiroz deixou vinte vacas; a sobrinha Iva de Holanda Theóphilo (esposa de Euclides Theóphilo) deixou uma casa em Fortaleza; a sobrinha Ester Holanda Farias casada com o Dr. Octávio Terceiro de Farias deixo uma casa em Fortaleza; a sobrinha Felismina Holanda Ferreira Lima (esposa de Francisco de Assis Ferreira Lima) deixou uma casa em Fortaleza; a sobrinha Maria Brígida de Holanda Pimentel (esposa de Francisco de Menezes Pimentel) deixou uma casa em Fortaleza; a sobrinha Francisca de Queiroz Nogueira (esposa de Ozório Nogueira de Queiroz) deixou uma casa em Fortaleza; ao sobrinho Pablo Nogueira de Queiroz deixou uma casa em Fortaleza; ao sobrinho Jarbas Nogueira de Queiroz deixou uma casa em Fortaleza; ao sobrinho Coelho Nogueira de Queiroz deixou uma casa em Fortaleza; ao sobrinho Ozório Nogueira de Queiroz deixou o sítio Santa Fé, em Pacoti; ao sobrinho Cícero Nogueira de Queiroz deixou o sítio Jerumenha, em Guaramiranga; ao sobrinho Carloto Nogueira de Queiroz deixou o sítio Alto da Pedra e seis contos de reis que lhe emprestou; a sobrinha Maria de Jesus Nogueira de Queiroz (esposa de Otílio Correia) deixou uma casa em Fortaleza e a fazenda Recife em Quixadá; ao sobrinho Humberto Nogueira de Queiroz deixou o sítio Praia Vermelha, em Pacoti; ao sobrinho Francisco Nogueira de Queiroz deixou a fazenda Serrote Branco em Quixadá; ao sobrinho Antônio Duarte de Holanda deixou a fazenda Vicente, em Canindé e o sítio São Gonçalinho, em Pacoti; ao sobrinho Francisco Solon de Holanda deixou a fazenda Cumprida no Estado do Piauí e Floresta em Quixadá; ao sobrinho Napoleão Theotônio de Queiroz deixou a fazenda Veado, em Quixadá; a sobrinha Neném Theotônio de Queiroz deixou sua propriedade na Serra do Estevão, em Quixadá; a Maria Dila (menor) filha de seu irmão Pedro Juca deixou a fazenda Pedreiras em Quixadá. 


4) As entidades pias e religiosas: A Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza deixou trinta apólices de dívida pública federal; a Santa Casa de Misericórdia de Sobral deixou dez contos de reis; ao Seminário de Fortaleza vinte apólices de dívida pública federal; ao Seminário do Crato deixou seis contos de reis em dinheiro e quatro apólices de dívida pública federal; ao Seminário de Sobral deixou dez contos de reis; ao Asilo de Alienados da Porangaba em Fortaleza deixou vinte apólices de dívida pública federal; ao Asilo do Bom Pastor de Fortaleza deixou dez apólices de dívida pública federal, ao Orphanato de Nossa Senhora da Imaculada Conceição deixou dez contos de reis; ao Patronato de Nossa Senhora Auxiliadora de Fortaleza deixou cinco contos de reis; ao Instituto de Assistência e Proteção a Infância de Fortaleza deixou dez contos de reis; ao Círculo Católico São José de Fortaleza deixou quatro contos de reis; ao Círculo Católico de Baturité deixou quatro contos de reis; ao Círculo Católico São José de Baturité deixou quatro contos de reis; a Escola Paroquial Menino de Deus deixou três contos de reis; a Sociedade Editora São Francisco das Chagas Ltda de Fortaleza deixou cinco contos de reis; ao Jornal Católico A verdade deixou dois contos de reis; a Escola dos Meninos Pobres do Colégio dos Dorotheas de Fortaleza deixou dois contos de reis; a Obras do Leprosário do Ceará deixou dez contos de reis. Dona Libânia em vida muito favoreceu a cidade de Baturité, onde fez expressivas doações em dinheiro para a compra das propriedades onde se instalou os Colégios dos Salesianos e da Escola Apostólica. Na cidade de Fortaleza mandou construir um ambulatório para atendimento à pobreza: A “Policlínica dona Libânia de Hollanda”. Em Guaramiranga, dona Libânia, fez a doação do sobradão do Dadá à arquidiocese de Fortaleza, com a condição irrenunciável de ser nele instalado um colégio para moças, de imediato o arcebispo Dom Manoel Silva Gomes, confiou-o às irmãs capuchinhas esta incumbição de realizar o desejo da doadora, nele imediatamente foi instalado o “Ginásio e Normal Sagrado Coração de Jesus”, que funcional sob a direção da irmã Stefânia Maria de Fortaleza, auxiliada por seu irmão o dom Hélder Câmara. Posteriormente, nele também se instalou a “Escola Doméstica Sagrado Coração de Jesus”, com os cursos primário e profissional, tempos depois, nele foi instalado o colégio Júlio Holanda e hoje funciona a escola municipal do mesmo nome. Outra particularidade interessante de dona Libânia foi a de ter o cuidado de “as suas custas” mandar parentes, afilhados e filhos de amigos para completar seus estudos nos melhores centros da época, não raro até mesmo para a Europa, preparando vários deles em letras, ciências e artes.

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