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NOTÍCIAS 01/10/2026

Aldemar Costa: A Saga de um Homem Bom Massacrado Pelas Engrenagens da Política

No coração da Serra de Baturité, a trajetória do primeiro prefeito eleito em Guaramiranga confunde-se com uma crônica de altruísmo, perseguição implacável e uma injustiça que marcou a história do Ceará.

📷 Foto: Art.M.Araújo
Aldemar Costa: A Saga de um Homem Bom Massacrado Pelas Engrenagens da Política
Aldemar Costa: A Saga de um Homem Bom Massacrado Pelas Engrenagens da Política
Aldemar Costa: A Saga de um Homem Bom Massacrado Pelas Engrenagens da Política
Aldemar Costa: A Saga de um Homem Bom Massacrado Pelas Engrenagens da Política

Antes de se tornar o epicentro de uma das disputas políticas mais dramáticas de Guaramiranga, José Aldemar de Queiroz Costa foi moldado pela terra. Nascido no dia 22 de dezembro de 1914, ele era filho de Zeca Tomaz e Raquel Inácio de Queiroz. O jovem Aldemar cresceu entre o labor rigoroso do sertão de Campos Belos e o frescor dos sítios Macapá e Icó, em Pacoti, e dos sítios Botija, Logradouro e São José, em Guaramiranga. Ali, vendo o pai negociar gado, rapadura e feijão, compreendeu a essência do povo interiorano.


Em 19 de março de 1940, uniu sua vida à de Fernandina Prata, vinda do Sítio Olho d'Água, em Maranguape, filha de Manuel de Sousa Prata (falecido em 1972) e de Luiza de Paiva Prata (falecida em 1925), cuja família também possuía propriedades no Sítio Água Boa, em Guaramiranga. Da união, nasceram sete filhas e consolidou-se o esteio de um homem que, mais tarde, seria tragado pelo redemoinho da vida pública.


A Ascensão do Líder das "Mãos Abertas"

Na década de 1950, o cenário político da Serra de Baturité era um tabuleiro dominado pelo coronelismo travestido de siglas partidárias, situado entre o PSD e a UDN. Aldemar Costa emergiu nesse panorama como uma anomalia: um homem de sensibilidade social aguda, conhecido pelo pilar da caridade e apelidado de "mãos abertas". Para ele, a política nunca foi um balcão de negócios ou um instrumento de enriquecimento pessoal, mas uma missão de vida.


Após estrear na vida pública como vereador em Pacoti, Aldemar liderou a estruturação do PSD em Guaramiranga, município recém-emancipado em 22 de setembro de 1957. A primeira eleição municipal, realizada em 3 de outubro de 1958, selaria seu destino. Em um pleito tenso e milimetricamente disputado, Aldemar conquistou a prefeitura com 455 votos contra seu oponente direto, o Coronel José Saraiva Neto (Coronel Saraiva, da UDN). Aldemar foi eleito aos 43 anos de idade, completando 44 anos em dezembro daquele ano. Terminar do mandato: Com 48 anos de idade (ou 49 anos, considerando a virada do ano civil). Historicamente, os mandatos iniciados na eleição de 1958 no Ceará estenderam-se de 1959 até o início de 1963, anterior à instalação do regime militar.


Eleição: 1958

Prefeito:

José Aldemar de Queiroz - PSD - 455 votos.

Vice-prefeito:

Flávio Caracas Nogueira - UDN-561 votos.

Vereadores eleitos: UDN

João Maria Correia Caracas - 145 votos;

Jaime César Caracas Nogueira - 123 votos;

José Ivan Marinho Costa - 96 votos;

Heitor Júlio Gomes Barbosa - 92 votos;

Ciro Café Lopes - 79 votos.PSD

Francisco Edson Viana Moreira - 78 votos;

Fernando Gomes da Silva - 67 votos.


O resultado final que levou a vitória de Aldemar Costa, causou profundas atritos e mágoas entre as lideranças políticas, notadamente por ser um escrutínio muito pequeno apenas, 106 votos, e pelo fato do vice ter sido eleito pela UDN.


Todavia, as urnas entregaram um cenário legislativo explosivo: seu vice-prefeito eleito, Flávio Caracas Nogueira, pertencia à oposição. Além disso, a primeira legislatura da Câmara Municipal contava com apenas 7 vereadores, dos quais a maioria esmagadora de 5 cadeiras foi ocupada pela UDN “João Maria Correia Caracas, Jaime César Caracas Nogueira, José Ivan Marinho Costa, Heitor Júlio Gomes Barbosa e Ciro Café Lopes”, restando apenas 2 vagas para o PSD “Francisco Edson Viana Moreira e Fernando Gomes da Silva”. A vitória trazia consigo o germe de uma crise profunda.


O Prefeito Construtor

Mesmo sob o olhar vigilante e hostil da oposição, a gestão de Aldemar Costa fincou os pilares da Guaramiranga moderna. Operando de forma pro tempore antes mesmo da posse oficial, ele estruturou as sedes dos poderes locais em um antigo casarão alugado. Sua administração foi marcada por um dinamismo impressionante:

Ergueu a Praça José Marinho de Góis e o monumento à emancipação;


1 Construiu o prédio definitivo da Prefeitura e da Câmara Municipal;


2 Expandiu a infraestrutura com a pracinha de Pernambuquinho e uma escola em Agostinho;


3 Modernizou a agricultura local com a histórica aquisição de um trator importado diretamente da Alemanha. 


4 No entanto, o progresso visível despertou o rancor dos derrotados.


A Armadilha: A Perseguição na Sombra do Regime

O revanchismo político não tardou a se manifestar. Seus principais adversários políticos, compostos por uma ala ferrenha da UDN ligada ao deputado Saraiva Xavier e por lideranças locais aliadas aos familiares do Dr. João Ramos, iniciaram uma implacável campanha de difamação. No âmbito legislativo, as pressões eram lideradas de forma direta pelos vereadores oposicionistas Jaime César e Heitor Barbosa. O pretexto para atacá-lo surgiu a partir de uma manobra burocrática, comum em municípios desprovidos de recursos: Aldemar utilizou verbas destinadas à reforma da praça central para pagar serviços emergenciais de desobstrução de estradas vicinais no interior.


Embora o remanejamento não tenha causado qualquer prejuízo aos cofres públicos ou gerado desvio pessoal, a prática configurava uma irregularidade técnica para a época. Sob a égide da "austeridade" moralista imposta pelo regime militar recém-instalado no país, a oposição instrumentalizou a denúncia perante o Ministério Público. Ao final de seu mandato, o prefeito construtor recebeu a mais dura punição: a prisão.


O Encarceramento e o Assassinato de Reputação.

O impacto foi brutal. Aldemar Costa foi lançado na cadeia pública de Pacoti, dividindo o cárcere por longos 18 meses com criminosos de alta periculosidade. Para um homem honesto de princípios, a humilhação foi indescritível. Contudo, o clamor popular e a indignação dos cidadãos forçaram as autoridades a transferi-lo para uma cela especial no Sítio Pau d'Alho, o chamado "Quarto Sete", onde funcionava o destacamento policial. Ali, sob a guarda compassiva de policiais que reconheciam sua integridade, Aldemar buscou refúgio na leitura e na escrita de suas memórias. Mais doloroso que as grades, porém, foi o linchamento moral promovido por boatos cruéis nas ruas da cidade. Adversários espalharam a fábula ridícula de que o prefeito teria comprado um avião, supostamente oculto no Sítio Nancy-Mante Flor, com o objetivo absurdo de "provocar chuvas para a região". O avião nunca foi visto e nunca existiu na realidade. Copiosamente ridicularizado, foi apelidado pejorativamente de "Caçamba" devido às remoções de terra pagas no município. A máquina de moer reputações operava em sua potência máxima.


A Inocência Tardia e o Triunfo nos Braços do Povo

A justiça, embora lenta e incapaz de apagar as cicatrizes do cárcere, finalmente se pronunciou. O juiz da Comarca de Pacoti proferiu a sentença de absolvição cabal. Ficou textualmente provado que Aldemar agiu sem dolo, sem má-fé, sem enriquecimento ilícito e sem desvio de patrimônio público. A sentença, contudo, lavou as mãos para a reparação do incomensurável dano moral e político causado a ele. Mas se as instituições falharam em restituir sua dignidade de imediato, o povo de Guaramiranga encarregou-se disso.


No dia de sua libertação, uma multidão histórica tomou as ruas. Aldemar Costa desfilou em um Jeep Willys (Clássicos CJ-3B azul pastel aberto, de propriedade de seu irmão Agenor Costa), cruzando vilas, estradas e sítios. Sob lágrimas, aplausos calorosos e abraços apertados, ele foi reconduzido ao seio de sua gente, que sempre soube da sua inocência.


O Desfecho de uma Vida

A história de Aldemar Costa permanece congelada no tempo como o retrato de um período turbulento, mas, acima de tudo, como o testemunho de um homem raro que ousou fazer da política um instrumento genuíno de amor ao próximo. Após atravessar as maiores tormentas de sua vida pública, o líder das "mãos abertas" silenciou sua trajetória no dia 10 de janeiro de 1993, aos 78 anos de idade, no bairro Jurema, em Caucaia. Aldemar Costa faleceu em decorrência de uma insuficiência cardíaca, deixando um legado inabalável de dignidade na memória de seu povo.


“Nota de Contexto Histórico:

Como os relatos e pesquisas não mencionam especificamente qual dos parlamentares foi escolhido para presidir a Mesa Diretora da Câmara naquele primeiro ano, a informação exata do nome do primeiro presidente do Legislativo permanece ausente dos registros analisados.”


Trabalho de pesquisa:. Historiador: Marcélio Farias,  Jornalista.: Marcos Antônio.

Equipe: Guaramiranga em Foco 

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