MARIA ITALIANA
A LENDA ESQUECIDA DE PERNAMBUQUINHO
Naqueles tempos antigos, quando o Arraiou do Riacho das Cobras, hoje Pernambuquinho, se erguia majestosa sobre a visão de longe dos sertões de Canindé e Maranguape, ainda envolta por matas de um verde profundo, havia ali uma mulher cuja história merecia ser contada ao pé do fogo, sob a luz vacilante de um candeeiro.
Seu nome era Rosa Maria Tortorelli de Almeida, mas o povo, que não costuma desperdiçar palavras quando encontra alguém digno de espanto, chamava-a simplesmente de Maria Italiana.
E não era ela uma mulher de viver escondida à sombra dos outros, nem criatura afeita ao sossego de uma cadeira de balanço, enquanto o mundo corria lá fora.
Não se sabe ser por seu sangue do lendário ítalo, o guerreiro povoador da Calabria, da paníssima itálica, o certo é que Maria Italiana pertencia àquela estirpe de mulheres que parecem ter recebido da própria natureza uma porção dobrada de coragem, energia e determinação. Onde muitos homens enxergariam dificuldades, ela divisava caminhos; onde outros recuariam diante dos perigos, ela apertava as rédeas e seguia adiante.
Dona de favoráveis terras, que se estendiam em baixas cobertas do verde das plantações de cana de açúcar, desde a sede da vila de Pernambuquinho, até as bandas das vilas de Forquilha e Botija.
Maria Italiana era senhora de um pequeno domínio encravado na serra. Naquelas paragens, entre a estrada e o riacho da Floresta, ainda se podiam ver, em tempos posteriores, as ruínas da antiga fábrica de cachaça e do engenho de cana-de-açúcar, testemunhas silenciosas de uma época em que o trabalho, o comércio e a força dos braços movimentavam a vida da região.
Aquelas terras não eram apenas chão e mato, pastagem e canavial. Eram o cenário de uma existência laboriosa, de negócios, viagens e acontecimentos que, com o passar dos anos, foram se recolhendo ao silêncio da memória.
Maria Italiana ficara viúva do Major Raimundo de Almeida Barreto, de estirpe familiar antiga na cidade de Baturité, ainda quando a vida lhe reservava longos caminhos pela frente. Da união nasceram sete filhos, e, com a morte do marido, coube-lhe a difícil tarefa de conduzir a família, administrar os bens e sustentar a posição que conquistara naquele mundo de costumes severos, no qual a autoridade dos homens costumava prevalecer sobre a vontade das mulheres.
Mas ela não era mulher de se deixar vencer pelas circunstâncias.
Se a viuvez lhe impôs o peso da responsabilidade, respondeu com trabalho. Se a vida lhe fechou uma porta, abriu outra com as próprias mãos. E assim, sem alarde nem necessidade de proclamar grandezas, foi conduzindo seus negócios e ampliando o patrimônio que recebera do esposo.
A MULHER QUE NÃO TEMIA OS CAMINHOS
Diziam que Maria Italiana era mulher dinâmica, incansável e destemida, de compleição alta, pele branca avermelhada e olhos azuis, cuja presença dificilmente passaria despercebida em qualquer ajuntamento. Sua voz era marcante, firme, dessas que parecem atravessar o rumor de uma feira e alcançar os ouvidos de quem se encontra do outro lado da praça.
Havia nela algo que os costumes de seu tempo dificilmente sabiam acomodar: uma mulher que negociava, administrava propriedades, enfrentava estradas e tomava para si encargos que muitos julgavam reservados aos homens.
Era, como se dizia na linguagem de então, uma mulher-homem, não por deixar de ser senhora, mãe e dona de casa, mas por reunir, em uma só pessoa, a coragem, a disposição e o desembaraço que se admiravam nos mais afoitos negociantes daqueles sertões.
Ora montada numa sela, ora acomodada sobre uma cangalha, seguia com seu comboio pelos caminhos da serra. Às vezes, descia em direção à cidade de Baturité; noutras ocasiões, tomava o rumo de Maranguape ou se embrenhava pelas estradas que conduziam aos sertões de Canindé.
Não havia hora certa para sua partida, tampouco para seu regresso. O dia podia nascer claro sobre os cafezais, ou a noite descer carregada de sombras sobre os caminhos, que Maria Italiana seguia conforme exigiam os negócios. Levava consigo as mercadorias, a provisão de alimentos e, como precaução diante dos perigos de uma época em que as estradas nem sempre ofereciam segurança, o seu revólver.
Vendia e comprava, negociava e barganhava. Seus produtos iam da rapadura à cachaça, e o comércio lhe permitia manter contato com localidades distintas, fazer circular mercadorias e ampliar os interesses de suas propriedades.
Naqueles caminhos antigos, entre subidas íngremes, riachos, atalhos e veredas cobertas pela vegetação, sua figura parecia pertencer tanto ao mundo real quanto às narrativas que o povo inventa em torno daqueles que se recusam a viver segundo as convenções.
É fácil imaginar o comboio avançando pela estrada, os animais carregados, o ruído das cangalhas e o ranger dos arreios, enquanto a neblina se desprendia dos altos da serra. À frente, Maria Italiana conduzia a jornada, atenta ao caminho e aos negócios, sem entregar o comando ao medo nem à fadiga.
E assim se fez conhecida.
Não pela espada de um guerreiro, nem pelas armas de um potentado, mas pelo trabalho persistente, pela ousadia de seus empreendimentos e pela capacidade de governar a própria vida em tempos que nem sempre concediam semelhante liberdade às mulheres.
O INFERNINHO DE PERNAMBUQUINHO
Entretanto, nem só de negócios e jornadas se compunha a existência daquela senhora.
Maria Italiana também era exímia jogadora de baralho. Nas horas de folga, reunia amigos e amigas para partidas de apostas que, segundo as lembranças preservadas, podiam atravessar dias e noites, sem que os participantes encontrassem tempo ou vontade de abandonar a mesa.
Imaginem-se as portas abertas, o movimento das pessoas, as conversas cruzadas, alguns visitantes embriagados, se exaltavam em voz alta, seja na torcida ou no seu próprio lazer, mas nada parava o rumor das cartas e a expectativa de cada jogada. Lá fora, a serra podia mergulhar no silêncio da noite; dentro da casa, porém, a animação seguia seu curso, como se o tempo tivesse esquecido de caminhar.
Era tamanha a movimentação daquele ambiente que o lugar acabou recebendo um apelido que corria de boca em boca: o inferninho de Pernambuquinho.
O nome, carregado de malícia popular, não deixa de revelar a impressão que a casa causava em quem conhecia seus costumes. A residência de Maria Italiana não era apenas o espaço de uma família; tornara-se também ponto de reunião e diversão, lugar de jogos e de convivência e lazer, onde a rotina da vila parecia adquirir outro ritmo ou sentido.
E, se havia quem se espantasse com tamanha disposição, certamente não faltaria quem comentasse, nas conversas de vizinhança, os feitos daquela mulher que tanto sabia cuidar de seus negócios quanto reunir gente ao redor de uma mesa de cartas.
Assim se formavam as lendas: um fato lembrado, um comentário repetido, uma imagem que crescia na memória coletiva até adquirir o tamanho da personagem que a originara.
TERRAS, ENGENHOS E CONQUISTAS
As propriedades de Pernambuquinho e Forquilha vieram-lhe do marido. Mas Maria Italiana não se contentou em conservar aquilo que recebera. Com seu trabalho e sua atividade comercial, ampliou o patrimônio, adquirindo a Fazenda Calábria e parte das terras da Umarizeira, em Campos Belos, na época pertencente a Canindé, além de diversas casas na cidade de Baturité e um extenso sítio na localidade de Umarizeira, em Maranguape.
Cada aquisição representava mais do que um pedaço de chão acrescentado aos seus domínios. Era o resultado de negociações, economias, viagens e decisões tomadas por quem aprendera a reconhecer oportunidades em meio às dificuldades.
Naquele tempo, possuir terras significava dispor de recursos, estabelecer relações e participar de uma ordem econômica na qual a agricultura, a criação de animais e a circulação de produtos tinham papel fundamental. Para uma mulher viúva, administrar e ampliar semelhante patrimônio exigia ainda maior firmeza, sobretudo em uma sociedade habituada a medir a autoridade feminina por padrões estreitos.
Maria Italiana, contudo, parecia não haver recebido notícia de tais limitações — ou, se as conhecia, não lhes concedia o poder de determinar sua existência.
Enquanto outros talvez se contentassem em resguardar o legado recebido, ela o fez crescer. E seu nome passou a ficar associado não somente à vila onde vivia, mas também às terras e localidades alcançadas por seus empreendimentos.
Hoje, quando as ruínas de antigos engenhos desaparecem sob a vegetação e os caminhos de outrora cedem lugar às estradas modernas, resta à memória a tarefa de reconstruir o cenário em que aquela vida se desenrolou.
É nesse ponto que a história se aproxima da lenda: não porque seus acontecimentos precisem ser revestidos de prodígios, mas porque a força de certas existências parece resistir ao esquecimento, mesmo quando os documentos se calam e as vozes que as conheceram já não podem ser ouvidas.
OS SETE RAMOS DE UMA MESMA ÁRVORE
Do casamento de Maria Italiana com o Major Raimundo de Almeida Barreto nasceram sete filhos: Adolfo de Almeida; Benjamim de Almeida Barreto; José de Almeida Barreto, conhecido como Cazuza Almeida; Maria de Almeida Barreto, chamada Maroca Almeida; Raimundo de Almeida Barreto, filho; Salvador de Almeida Barreto; e Carlota Joaquina de Almeida, conhecida como QuiKina Almeida.
Com a morte do marido, Maria Italiana criou os filhos sem contrair novo casamento e sem estabelecer outro relacionamento amoroso, conforme registram as lembranças familiares. Coube-lhe, portanto, não apenas conduzir os negócios, mas também acompanhar a formação dos descendentes e prepará-los para enfrentar a vida.
Gostava de ler e escrever, qualidades que lhe conferiam particular distinção naquele ambiente e naquele tempo. Fez questão de instruir os filhos nos conhecimentos das letras e da matemática, transmitindo-lhes uma educação que ultrapassava os limites da administração cotidiana das propriedades.
Se as terras constituíam o patrimônio visível, o conhecimento representava uma herança de outra natureza: aquela que não se perde com a venda de uma fazenda, não desaparece com a demolição de uma casa e não depende da conservação de uma escritura.
Era como se Maria Italiana compreendesse, à sua maneira, que os bens materiais podiam mudar de mãos, mas o saber, uma vez adquirido, seguiria acompanhando os descendentes por caminhos que ela própria talvez nunca viesse a conhecer.
Dos sete filhos, cada qual tomou seu rumo, e a família espalhou-se por diferentes localidades do Ceará, deixando marcas na memória de Pernambuquinho, Guaramiranga, Campos Belos, Maranguape e outras paragens.
Sobre Adolfo de Almeida, porém, a lembrança conservada não permite afirmar com segurança se chegou à idade adulta ou se deixou descendência. E é preciso respeitar o silêncio da história onde faltam informações, pois nem todo nome antigo encontra seu caminho até os registros que chegaram aos nossos dias.
Benjamim de Almeida Barreto, descrito como intelectual à semelhança da mãe, casou-se com Brígida Ana Carneiro. Parte de seus descendentes permaneceu na cidade de Guaramiranga e no Sítio Augustinho. Entre os ramos familiares mencionados nas lembranças encontram-se os descendentes de Borja, o grande locutor das quermesses das novenas de senhor do Bomfim de Pernambuquinho e de Santa Terezinha da Botija, e dos radiadores uma moda jovem daquela época com melodias de Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Orlando Silva, etc., era o esposo de Dona Violeta, hoje tabeliã ao Cartório Almeida.
Nessa linhagem, segundo a tradição familiar, manifestaram-se inclinações artísticas que atravessaram gerações: a pintura, a música e a locução. Seria tentador atribuir tais aptidões a uma herança direta da matriarca; mais prudente, porém, é reconhecer que a família preservou a imagem de Maria Italiana como uma mulher culta, de espírito ativo e gosto pelas letras, cuja influência se tornou parte de sua própria identidade.
José de Almeida Barreto, o Cazuza Almeida, teria falecido solteiro na Umarizeira, em Maranguape.
Já Maria de Almeida Barreto, a conhecida Maroca Almeida, casou-se com Antônio Nogueira Lima, natural de Ipu. Seus descendentes também fazem parte das lembranças da vila de Forquilha, lugar que permaneceu vivo na memória de quem ali conheceu familiares e acompanhou os costumes da comunidade.
Entre essas recordações ressurge a figura de Antônio Nogueira, filho do casal, que costumava fazer serenatas nas madrugadas de dias comemorativos, inclusive nas celebrações do Dia das Mães. Sua voz e suas melodias ficaram gravadas na lembrança de quem as escutava, despertando emoções tão profundas que, ainda muito tempo depois, a memória dessas serenatas era capaz de trazer lágrimas aos olhos.
Na vila de Forquilha permaneceu também a Dona Naíde, filha de Maroca, esposa do comerciante conhecido como Senhor Zeca Costa.
Assim, entre uma geração e outra, a história familiar foi adquirindo novos contornos. Os caminhos percorridos pela matriarca continuaram a se desdobrar em outras vidas, outros ofícios e outras recordações.
OS CAMINHOS QUE SE SEPARARAM
Raimundo de Almeida Barreto, o filho, casou-se com a professora Maria do Carmo Rodrigues de Carvalho, natural de Granja. Exerceu a função de tabelião no cartório de Pernambuquinho, que funcionava na vila de Forquilha.
A respeito de sua vida conjugal, conservou-se um relato de natureza controversa. Conta-se que, após uma separação conflituosa, teria queimado partes de um livro do cartório, supostamente para impedir que sua condição de casado fosse identificada. O próprio relato, contudo, não apresenta confirmação suficiente para que o episódio seja tratado como fato comprovado.
Segundo a mesma memória, Raimundo deixou o ofício do cartório e vendeu as partes de terras que possuía em Forquilha a Augusto Saboia, do Sítio Paca, e a Nascimento Almeida, avô do narrador. As terras do Cafundó e Botija teriam sido vendidas a Vicente Farias, tio-avô do autor, o prédio do Cartório, foi vendido a Raimundo Bezerra. Depois desses atos mudou-se para Umarizeira, em Maranguape, sem retornar à região.
São episódios que revelam como as propriedades familiares, outrora reunidas sob a administração de uma mesma matriarca, acabaram se dividindo entre herdeiros, compradores e novos moradores. As terras permaneceram, mas os vínculos que lhes davam unidade foram sendo alterados pelo tempo.
Salvador de Almeida Barreto casou-se com Maria Amélia e foi residir na Fazenda Calábria, onde constituiu numerosa família. Parte de seus descendentes permaneceu em Campos Belos.
Sua contribuição para o crescimento daquela localidade é lembrada pelo loteamento de frações de terras que deram origem aos espaços hoje conhecidos como bairros Calábria e Vila Beta.
Onde antes havia terras pertencentes a uma propriedade rural, formaram-se novos núcleos de ocupação. A paisagem foi mudando, os caminhos ganharam outras funções e a vida comunitária passou a se organizar de maneira distinta.
Desse modo, a história de uma família ultrapassou os limites da casa e do engenho para participar da própria transformação dos lugares.
Por fim, Carlota Joaquina de Almeida, a QuiKina Almeida, casou-se em Umarizeira com Manoel Simplício de Barros. Seus descendentes espalharam-se por diferentes regiões do Ceará, e, entre os nomes destacados na tradição familiar, encontram-se o animador de auditório Irapuã Lima e o radialista esportivo Alan Neto.
Ambos são lembrados como representantes de uma inclinação artística que, segundo a narrativa familiar, atravessou as gerações da descendência de Maria Italiana.
Eis, portanto, os sete ramos que partiram de uma mesma árvore. Cada qual tomou sua direção, enfrentou suas próprias vicissitudes e deixou marcas diferentes no mundo. Alguns permaneceram próximos das terras antigas; outros seguiram para localidades distantes. Mas os nomes, os casamentos, os ofícios e as lembranças continuaram unidos pelo fio invisível da ancestralidade.
A MULHER QUE O TEMPO NÃO VENCEU
O tempo, senhor de todas as coisas, é também o mais impiedoso dos colecionadores. Engole caminhos, derruba casas, cobre ruínas com raízes e transforma em silêncio aquilo que outrora foi rumor, festa e movimento.
A antiga fábrica de cachaça, o engenho de cana-de-açúcar, as propriedades de Pernambuquinho e Forquilha e os caminhos percorridos pelos comboios pertencem a um mundo que já não existe da mesma maneira.
Mas nem tudo desaparece.
Há nomes que sobrevivem nos registros familiares; há histórias que atravessam gerações pela voz dos mais velhos; há personagens que, mesmo ausentes dos grandes livros, continuam a habitar a memória de suas comunidades.
Maria Italiana é uma dessas figuras.
Não foi coroada rainha, não comandou exércitos, não conquistou cidades pela força das armas. Sua grandeza, entretanto, encontra-se em outro campo: na coragem de administrar a própria existência, na disposição de percorrer estradas, na capacidade de ampliar seu patrimônio, na responsabilidade de criar os filhos e no empenho de lhes oferecer a educação que considerava necessária.
Era mulher de negócios e de letras, de viagens e de reuniões, de trabalho e de convivência. Carregava consigo a firmeza de quem sabia que a vida não concede descanso prolongado aos que precisam sustentar uma família e conservar aquilo que conquistaram.
Talvez tenha sido justamente essa combinação de atributos que fez de sua figura algo extraordinário aos olhos de seus contemporâneos e dos descendentes que preservaram sua lembrança.
Na Serra de Baturité, onde a neblina da manhã por vezes encobre os caminhos e as noites parecem guardar vozes de tempos antigos, podemos imaginar a silhueta de Maria Italiana seguindo à frente de seu comboio. Os animais avançam pela estrada, as mercadorias balançam nas cangalhas e a mulher de olhos azuis conduz sua jornada sem se deixar deter pela distância.
É uma imagem literária, reconstruída a partir dos traços que a memória conservou, mas que ajuda a compreender a força da personagem.
Talvez, em algum ponto da antiga estrada, ela tenha parado para descansar, alimentado os animais ou conferido as mercadorias antes de prosseguir. Talvez tenha atravessado muitas noites sob o céu estrelado do Ceará, levando consigo as preocupações de mãe, as responsabilidades de proprietária e os cálculos de comerciante.
Não sabemos todos os detalhes de suas jornadas. Sabemos, porém, que viajava, negociava, administrava e ampliava seus bens, deixando uma marca que ultrapassou sua própria existência.
E quando, muito depois, alguém se põe a reunir os fragmentos dessa história, o passado parece despertar por um instante. O engenho volta a ganhar movimento, as estradas tornam a receber viajantes e as antigas propriedades reaparecem no horizonte da imaginação.
Maria Italiana deixa então de ser apenas um nome esquecido em uma genealogia. Torna-se a personagem de uma crônica da Serra, representante de um tempo em que o trabalho, a coragem e a determinação podiam transformar o destino de uma família.
Sua história não precisa de feitos sobrenaturais para adquirir grandeza. Basta-lhe a ousadia de ter vivido como viveu, em uma época que impunha tantas limitações às mulheres, e de ter construído, com os recursos de que dispunha, um patrimônio e uma descendência que se espalharam por diferentes localidades do Ceará.
E assim, entre a história documentada e a memória transmitida, entre os nomes preservados e os episódios ainda envoltos em dúvidas, permanece a figura de Rosa Maria Tortorelli de Almeida, a inesquecível Maria Italiana.
Porque há pessoas que desaparecem quando a última testemunha se cala; outras, porém, continuam a viver enquanto houver alguém disposto a contar sua história.
E Maria Italiana, senhora de Pernambuquinho, merece permanecer entre aquelas que o tempo não conseguiu apagar.