Carregando data...
Edição...
Logo Guaramiranga em Foco

GUARAMIRANGA EM FOCO

Guaramiranga, Ceará
Sua revista online
Marcélio Farias 31/10/2026

A casa dos Braquehais e os Abreu Motta de Pernambuquinho

Memórias de uma propriedade, de uma família e de um sonho na Serra

A casa dos Braquehais e os Abreu Motta de Pernambuquinho

Na segunda metade do século XIX, quando a Serra ainda guardava, entre seus caminhos e plantações, o silêncio de um mundo em formação, começava a despontar um pequeno povoado à beira dos vastos canaviais que se estendiam pelas margens do Riacho das Cobras. Era um recanto cercado por grandes propriedades, cada qual com sua história, seus antigos possuidores e os destinos de famílias que, pouco a pouco, ajudavam a desenhar a paisagem humana daquele lugar. Ao Poente, erguia-se o grande Sítio Limoeiro, de Vicente Bezerra Lira, então na posse de seu filho, Idelfonso Bezerra Lira, patriarca da família Bezerra. A propriedade havia sido adquirida do canindeense Simplício Teixeira de Castro, morador do Sítio Baixa Fresca. Antes, aquelas terras eram conhecidas como Sítio Tamanduá e haviam pertencido ao posseiro Cosme Pereira de Souza, nomes que, como vestígios de antigas pegadas, permaneciam inscritos na memória da terra.


Ao Norte, encontrava-se o pequeno Sítio Vieira, hoje conhecido como Sítio Canaã ou Canada, pertencente a Raimundo Vieira da Motta e sua esposa, Maria Rodrigues Vieira, que o haviam adquirido do posseiro Luís Pereira. Já na direção Norte-Nascente, avistavam-se o grande Sítio Beija-Flor, de propriedade de Manuel Vieira da Motta (1814†1884), residente no Sítio Columinjuba, em Maranguape, e seguindo o Sítio Santarém, desmembrado daquela propriedade em favor de sua filha Josefa, Maria Joaquina da Motta Abreu, casada com João Floriano Lopes Ferreira. Ao Sul, ficava o Sítio Guanabara, recentemente desmembrado do vasto Beija-Flor e adquirido por famílias vindas de Pernambuco. Entre elas estavam os comerciantes e feirantes José da Cunha Medina (1854†1928) e João Monteiro Gondim (1812†0000). Este último, não tendo encontrado no lugar o destino que talvez imaginasse, acabou por deixá-lo com sua filha Isabel de Paula Barros (0000†1932), casada com Estevam de Paula Barros (1844†1896).


A pequena povoação, entretanto, ainda buscava o nome pelo qual seria reconhecida. Foi depois da edificação do Templo do Senhor do Bonfim, em 1873, que sua história ganhou um marco de especial significado. Naquele ano, vindo de Olinda, Pernambuco, chegou o primeiro vigário, Padre José Raimundo Batista de Oliveira. A presença do sacerdote e a construção do templo deram novo sentido à vida comunitária, e o lugar passou a ser conhecido como povoado de Pernambuquinho. Com o falecimento do patriarca Manuel Vieira da Motta (1814†1884), casado com Maria Marcolina de Abreu (1816†0000), as terras do Sítio Beija-Flor foram repartidas entre seus filhos. Em Pernambuquinho permaneceram Raimunda Cândico da Motta, casada com Pedro Sampaio de Andrade; Manuel Vieira da Motta, filho, casado com a sobrinha Tetê, Tereza Maria Floriano Lopes; Filomena de Abreu Motta, que, após o falecimento da irmã, se casou com o viúvo Pedro Sampaio de Andrade; Marcolina Lopes de Abreu, casada com Manoel Teixeira Lopes; e Jerônimo Vieira da Motta (1841†1936).


Foi justamente uma parte das terras pertencentes a Jerônimo Vieira da Motta que, mais tarde, encontrou um novo capítulo de sua história. O imóvel foi vendido ao francês Robert Joseph Braquehais, então técnico em tecelagem da empresa Gradvohl & Filhos, ligada à conhecida Fábrica Maranguape, do ramo têxtil. Antes de se tornar proprietário na região, Robert Joseph Braquehais já havia conhecido a beleza da serra. Em uma visita a Guaramiranga, hospedou-se no Sítio Granja São José, que então pertencia à família Otoch. A paisagem, o clima e o encanto daquele lugar parecem ter conquistado de imediato o visitante francês. E há lugares que não se limitam a receber quem chega: insinuam-se na memória, despertam afetos e acabam por chamar o viajante de volta.


O retorno veio alguns anos depois. Em 1957, Robert adquiriu parte do antigo Sítio Beija-Flor, em Pernambuquinho, movido pelo propósito de ali estabelecer residência e desenvolver um empreendimento. Havia no imóvel, próximo à vila, um quarto de bodega já construído. Braquehais decidiu reformá-lo e aproveitá-lo para instalar uma pequena fábrica de tecidos e tintas têxteis. Assim, entre a tradição rural da propriedade e o espírito empreendedor de seu novo dono, nasceu uma iniciativa que procurava unir o trabalho industrial à tranquilidade da serra. O projeto, porém, teve vida breve. Por motivos de saúde, Robert conseguiu manter a pequena fábrica por apenas dois anos. Faleceu precocemente em 1961, aos 59 anos, deixando para trás sua residência serrana e os planos que havia começado a construir naquele recanto.


Mas algumas presenças permanecem mesmo depois que seus autores partem. Robert Joseph Braquehais deixou uma marca que o tempo não apagou: o casarão de formas arredondadas, de arquitetura inovadora para sua época, cuja silhueta singular ainda evoca a ousadia e a sensibilidade de quem o concebeu. Também foi ele quem mudou o nome da propriedade para Sítio Normandie, denominação que atravessou as décadas e permanece até os dias atuais. O Sítio Normandie continua sob a administração da família, tendo à sua frente a Dra. Huguette Braquehais, desembargadora aposentada do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará. Desse modo, a antiga propriedade conserva não apenas um nome e uma construção peculiar, mas também a lembrança de uma trajetória que atravessa gerações: dos antigos domínios do Beija-Flor aos Abreu Motta de Pernambuquinho; das terras repartidas entre herdeiros à chegada do francês que encontrou na serra um lugar para viver e sonhar.


E assim, entre canaviais, antigas escrituras de posse, vínculos familiares, caminhos de Pernambuco e sonhos vindos da França, a história do Sítio Normandie permanece entrelaçada à própria memória de Pernambuquinho. É uma história feita de terras e trabalho, de partidas e chegadas, de heranças e reinvenções, como se cada geração tivesse acrescentado uma nova página ao livro silencioso da serra.

Foto.: Marcos Maluly.

Compartilhe:

Outras do mesmo colunista