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NOTÍCIAS 22/10/2026

Sementes da Solidariedade: O renascer do periquito-cara-suja.

Sementes da Solidariedade: Como o café sombreado e os moradores de Cana Seca salvaram o periquito-cara-suja da extinção

📷 Foto: May. Araújo
Sementes da Solidariedade: O renascer do periquito-cara-suja.

O som alegre e ruidoso do periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus) ecoando pelas copas das árvores de Guaramiranga nem sempre foi uma garantia. Há poucas décadas, o silêncio pairava na região: a espécie, endêmica do Nordeste e símbolo da nossa biodiversidade, estava à beira do desaparecimento total devido ao desmatamento e ao tráfico de animais, restando apenas cerca de 100 indivíduos na natureza. Mas uma rede invisível de solidariedade, que fincou raízes na comunidade de Cana Seca, mudou o destino da floresta e da ave.


Para reverter a falta de cavidades naturais onde as aves pudessem procriar, o esforço científico da ONG Aquasis uniu-se ao maior recurso disponível na serra: a generosidade de sua gente. Os moradores locais decidiram doar o seu bem mais precioso, o tempo, o trabalho e o cuidado,  para acolher a espécie.


Cana Seca: O Berço Pioneiro da Conservação

Foi na comunidade rural de Cana Seca que a virada histórica aconteceu. Os agricultores locais abriram suas propriedades rurais para os pesquisadores e transformaram seus quintais em santuários ecológicos. O ato de construir, monitorar e proteger as chamadas "caixas-ninho", estruturas de madeira que imitam os ocos das árvores, transformou-se em uma rotina comunitária. O que começou como um experimento em Cana Seca logo provou sua eficácia e se espalhou por todo o resto da região, criando uma corrente de proprietários rurais dedicados à proteção da ave.


O Café de Sombra e o Segredo da Ingazeira

O grande segredo dessa sobrevivência, no entanto, estava escondido sob as plantações de café de Guaramiranga. Diferente de outras regiões, a serra cultiva o tradicional café sombreado, uma prática agroecológica onde os cafezais crescem protegidos por árvores nativas de grande porte. Entre elas, destaca-se a ingazeira. Utilizada pelos produtores serranos para garantir a sombra perfeita e o frescor que dão o sabor único ao café local, a ingazeira revelou-se um verdadeiro banquete para a fauna. Suas fartas vagens de ingá são, historicamente, a base e o pilar da alimentação do periquito-cara-suja. Ao preservarem as ingazeiras para proteger o café, os agricultores, mesmo sem saber do futuro declínio da espécie, já doavam de forma contínua o alimento necessário para que as gerações de cara-suja pudessem se manter.


Essa visão integrada já existia na região muito antes do projeto de conservação nascer. Na década de 1970, o Sr. José Lopez, produtor e proprietário do Sítio Santarém, já plantava ingazeiras em sua propriedade de 10.000 m² para cobrir o café e fortalecer o solo com a queda das folhas. Com essa ação pioneira, ele acabou alimentando voluntariamente os periquitos e diversas outras aves da floresta.


Uma Herança para o Futuro

Graças a esse pacto de cooperação entre a ciência, a tradição agrícola e o voluntariado dos moradores, a população da ave cresceu impressionantes 1.000%, ultrapassando a marca de 1.200 indivíduos voando livres na Serra de Baturité. Em Guaramiranga, o ato de proteger o periquito transformou-se em uma prática cotidiana transmitida entre gerações. A história do periquito-cara-suja prova que a cultura de doação vai muito além de recursos financeiros. Trata-se de doar convivência, cuidado e proteção ao ecossistema. Quando os moradores da comunidade Cana Seca decidiram abraçar um pássaro ameaçado, eles salvaram a identidade viva de Guaramiranga.

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